O Carnaval, celebrado em todo o Brasil como um dos maiores espetáculos de cultura, festa e efervescência econômica, esconde uma realidade sombria para milhões de mulheres. Em meio à alegria contagiante de blocos, trios elétricos e bailes, o assédio sexual persiste como uma ameaça velada, comprometendo a experiência e a segurança de inúmeras foliãs. É neste cenário de contrastes que a mensagem simples, porém poderosa, <b>“Não é Não”</b>, emerge como um grito de resistência e um pilar fundamental para a construção de um ambiente de celebração verdadeiramente inclusivo e respeitoso.
A Persistência do Assédio na Folia Brasileira
O que para muitos pode ser encarado como uma mera “brincadeira” ou parte da informalidade festiva, representa para as mulheres uma grave violação, manifestada em constrangimento, invasão do espaço pessoal, violência psicológica e, por vezes, traumas duradouros. As vítimas abrangem um espectro amplo da população feminina, incluindo meninas, jovens, mulheres adultas e mulheres trans. O perfil comum dos agressores são homens que, ignorando a manifestação explícita de recusa, insistem em suas condutas, transformando momentos de lazer em experiências de medo e insegurança. Esta realidade exige um olhar atento e uma ação contínua para desconstruir a cultura que minimiza tais comportamentos.
A Sociedade Reconhece o Problema: Dados Alarmantes
A dimensão do assédio no Carnaval não é uma percepção isolada, mas uma preocupação amplamente reconhecida pela sociedade. Um levantamento recente do Instituto Locomotiva, divulgado pelo Instituto Patrícia Galvão, entrevistando mais de 1.500 brasileiros em janeiro de 2024, revela uma concordância massiva: <b>86% da população</b> afirma que o assédio no Carnaval ainda é uma prática presente e que o combate a ela é uma responsabilidade coletiva. Entre as mulheres, esse índice é ainda maior, alcançando <b>89%</b>. Tais dados comprovam que a violência não é um incidente esporádico, mas uma ocorrência frequente que exige uma mobilização abrangente e coordenada para ser efetivamente enfrentada.
De Campanha a Lei Federal: A Instituição do Protocolo 'Não é Não'
A relevância da campanha “Não é Não” transcendeu as mensagens educativas e ganhou o respaldo do arcabouço jurídico nacional. Em 2023, a iniciativa foi elevada à condição de lei federal, estabelecendo um protocolo específico para ambientes de lazer e eventos de grande porte, como o Carnaval. Esta legislação inovadora não apenas prevê medidas preventivas contra o assédio e a violência de gênero, mas também delineia diretrizes claras para o acolhimento das vítimas e orientações para que estabelecimentos e organizadores ajam de forma adequada em tais situações. O objetivo central é assegurar que a negativa de uma mulher seja respeitada de forma inquestionável e que os abusos resultem em responsabilização dos agressores, promovendo um ambiente mais seguro e justo.
Canais de Apoio e Denúncia: O Disque 180 como Ferramenta Essencial
Para que a luta contra o assédio seja eficaz, é fundamental a existência de canais de denúncia acessíveis e eficientes. O <b>Disque 180</b> se consolida como o principal serviço de atendimento à mulher em situação de violência em todo o território nacional. Operando 24 horas por dia, de forma gratuita e acessível de qualquer local do Brasil, o canal não se limita ao registro de ocorrências. Ele também oferece orientação sobre os direitos das vítimas e as encaminha para a rede especializada de atendimento, que inclui suporte jurídico, psicológico e social. A existência e a divulgação deste serviço são cruciais para empoderar as mulheres e garantir que suas vozes sejam ouvidas e suas necessidades atendidas.
O Carnaval deve ser, em sua essência, um período de alegria desmedida, liberdade e celebração da vida. Nenhuma mulher merece ter sua experiência de folia interrompida ou manchada pelo medo e pela violência. A mensagem é categórica: o consentimento é a pedra angular de qualquer interação. Se a resposta for “não”, isso significa um “não” definitivo – sem espaço para insistência, pressão ou justificativas. Combater o assédio é um dever que se estende a toda a sociedade, e denunciar é um ato de coragem, proteção mútua e cidadania, essencial para construirmos um futuro onde a festa seja, de fato, livre e segura para todos.
Fonte: https://fetram.com.br