O 1º Seminário Estadual de Camponeses, Indígenas e Povos Tradicionais, promovido pela CSP-Conlutas em parceria com diversas entidades e movimentos sociais, concluiu suas atividades no Pará com um balanço amplamente positivo. Avaliado como um sucesso pelas lideranças, o evento dedicou dois dias intensos à articulação política e à construção coletiva, reunindo uma vasta gama de representações, desde camponeses e populações ribeirinhas a agricultores familiares, povos indígenas e representantes sindicais do campo e da cidade. O encontro se estabeleceu como um espaço vital para fortalecer a unidade de classe e a autodefesa dos territórios.
Diálogos Cruciais para a Defesa Territorial no Pará
O primeiro dia do seminário, realizado em 2 de maio, foi marcado por uma rica programação de mesas, debates e grupos de trabalho, focada na análise aprofundada dos desafios enfrentados pelas comunidades. A pauta abordou temas críticos como o avanço do agronegócio, os impactos das mudanças climáticas, os megaempreendimentos de mineração e hidrelétricas, e os recorrentes episódios de violência no campo. Um diferencial foi a abertura de espaço para que os próprios atingidos pudessem relatar suas experiências, conferindo autenticidade e urgência aos debates. Entre os palestrantes, destacaram-se nomes como o geógrafo Jeferson Choma, o professor da UFPA Gilberto Marques, Dion Monteiro do Xingu Vivo, o procurador do MPF Sadi Machado, e a Dra. Tatiana, assessora do Ministério Público Estadual especializada na proteção de pessoas ameaçadas.
O Papel Estratégico da Juventude
Dentro dos grupos de trabalho, uma discussão centralizou-se na juventude, enfatizando a necessidade de garantir seus direitos fundamentais. Propôs-se que saúde e educação fossem asseguradas dentro dos próprios territórios, juntamente com oportunidades de formação profissional alinhadas aos interesses e realidades locais, em contraposição a modelos impostos externamente. Essa perspectiva sublinha a importância de um desenvolvimento autônomo e sustentável, que valorize a permanência e o futuro das novas gerações em suas terras.
Vozes da Resistência: Denúncias e Articulação Coletiva
O seminário se tornou um palco potente para denúncias e o reforço da articulação entre os povos. A líder indígena Alessandra Munduruku utilizou o espaço para criticar veementemente o agronegócio, apontando-o como gerador de problemas nos territórios e obstáculo às negociações. Ela enalteceu o seminário como um ponto de encontro vital para o diálogo e a construção coletiva entre aqueles que dedicam suas vidas à defesa de suas terras e direitos. Erasmo Theófilo, defensor de direitos humanos de Anapu, denunciou a extração de ouro pela empresa Belo Sun, que compromete os recursos hídricos e a subsistência de ribeirinhos, mas reafirmou a persistência e a resistência das comunidades. Por sua vez, Dion Monteiro reforçou a indissociabilidade das questões econômica e ambiental, alertando para como o capital explora essa interconexão.
Ampla Representatividade: Um Mosaico de Lutas
A riqueza do seminário foi amplificada pela diversidade e abrangência de suas representações. Participaram lideranças das etnias Kuruaya, Xipaya, Juruna e Arara, vindas da região de Altamira. Comitivas de agricultores e ribeirinhos de municípios como Igarapé-Miri, Cametá, Moju e Tailândia, através da diretora do STTR, Luzia, e representantes do acampamento/assentamento Paulo Fonteles, como EdMorf do MST, também marcaram presença. Adicionalmente, camponeses e lideranças do município de Anapu trouxeram suas perspectivas. A realização do encontro contou com o apoio de diversas organizações sindicais e populares, incluindo o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, o Quilombo Raça e Classe, as representações nacional e estadual da CSP-Conlutas, o Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Sintrajud-SP, Sindsef-SP e o Sindicato do STAFPA.
Vivência Comunitária e Agroecologia: Inspiração em Moju
O segundo dia de atividades, em 3 de maio, culminou em uma significativa vivência de campo na Comunidade São Jorge, em Moju. Essa imersão permitiu aos participantes conectar-se diretamente com as realidades locais, explorando práticas de agroecologia, valorizando o conhecimento ancestral e discutindo estratégias para a segurança alimentar e a preservação da biodiversidade amazônica. Dona Edilene, uma líder local, compartilhou a inspiradora luta de sua família pela posse da terra e sua resistência contra o avanço do agronegócio, reiterando a força da ação coletiva e o potencial da agroecologia como caminho para a sustentabilidade. A experiência no campo solidificou o entendimento sobre os desafios e as soluções propostas pelas próprias comunidades, reforçando o compromisso com a defesa territorial e a soberania alimentar.
Conclusão e Legado: Um Futuro de Lutas Coletivas
O 1º Seminário Estadual de Camponeses, Indígenas e Povos Tradicionais no Pará consolidou-se como um marco na organização e articulação das lutas por direitos e territórios. Ao promover o intercâmbio de experiências e o debate sobre as ameaças e estratégias de resistência, o evento fortaleceu a unidade entre os diferentes povos e movimentos. O compromisso com a autodefesa e a proteção do patrimônio ambiental e cultural dos territórios emerge como o principal legado, impulsionando a construção de uma rede de solidariedade e resistência capaz de enfrentar os desafios futuros e garantir um futuro mais justo e sustentável para as comunidades do Pará.
Fonte: https://mundosindical.com.br