O Brasil celebra um marco significativo: há um ano, o país alcançava um feito importante ao deixar o Mapa da Fome das Nações Unidas. Esta conquista se traduz em uma drástica redução do contingente populacional em risco de subnutrição, caindo para menos de 2,5%. No entanto, em meio a essa vitória, uma realidade desafiadora persiste: aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros ainda vivem em situação de insegurança alimentar grave. Este cenário complexo demanda uma análise aprofundada das estratégias adotadas, dos desafios remanescentes e dos caminhos a serem trilhados para garantir que o acesso à alimentação seja uma realidade para todos.
A Conquista e a Persistência do Desafio Nacional
A saída do Brasil do Mapa da Fome, há cerca de um ano, representou o menor patamar de risco de subnutrição na história recente do país. Contudo, essa vitória não elimina a necessidade de vigilância e ação contínuas. Embora o índice de insegurança alimentar grave tenha atingido seu ponto mais baixo na série histórica, os 6,5 milhões de indivíduos afetados evidenciam que a luta contra a fome está longe de ser concluída. Especialistas, como Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome da Universidade de São Paulo (USP), alertam que a manutenção e o aprimoramento desse resultado dependem da permanência e da intersetorialidade de políticas públicas abrangentes nas áreas de emprego, renda, saúde, educação e segurança alimentar.
Compreendendo a Fome em Sua Dimensão Multidimensional
A erradicação da insegurança alimentar transcende a simples oferta de alimentos. Lucas Moura enfatiza que o combate eficaz à fome reside na criação e sustentação de uma estrutura complexa que assegure o acesso adequado à alimentação. Essa visão vai além do prato cheio, englobando elementos cruciais como a garantia de renda mínima, acesso à educação de qualidade, saneamento básico, água potável, segurança pública e, fundamentalmente, oportunidades de emprego. A interconexão desses fatores é vital para construir um ambiente onde a alimentação saudável e regular seja um direito consolidado e acessível para toda a população.
O Índice Multidimensional da Insegurança Alimentar (MUFII) e Suas Revelações
Para mensurar a complexidade da fome, Lucas Moura é o idealizador do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII). Lançado em janeiro e publicado na revista Sustainability, o estudo pioneiro avalia a fome a partir de 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável, cobrindo o período de 2018 a 2022 e permitindo uma análise comparativa anual. Os resultados iniciais do MUFII revelaram um cenário nacional de piora em 2022 e destacaram profundas disparidades regionais. Enquanto Santa Catarina apresentou os menores valores médios de insegurança alimentar multidimensional, estados como Maranhão, Acre e Amazonas registraram os maiores índices. Os dados são alarmantes, indicando que grande parte das regiões Norte e Nordeste do Brasil se encontra acima do patamar de 50% de insegurança alimentar multidimensional. A equipe de pesquisa já projeta a atualização contínua do índice para os anos subsequentes, oferecendo um panorama dinâmico da situação.
A Ação Governamental: O Plano Brasil Sem Fome
Na esfera governamental, a secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Valéria Burity, sublinha que a meta é firmar o direito à alimentação adequada e saudável para todos os brasileiros como um pilar de longo prazo. Uma das iniciativas mais impactantes nesse sentido é o Plano Brasil Sem Fome. Esta estratégia articula diversas medidas de política econômica e de proteção social, fomentando a agricultura familiar, reajustando a alimentação escolar e apoiando cozinhas comunitárias. Além disso, o plano se dedica a garantir meios de proteção social, trabalho, renda e acesso digno à alimentação. A prioridade do MDS, atualmente, é incluir as populações ainda em risco de insegurança alimentar nas políticas públicas, colaborando ativamente com estados e municípios para que repliquem e reforcem essas ações em nível local.
Os Pilares da Superação: Desigualdade e Proteção Social
A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta para dois grandes movimentos que foram decisivos para recolocar a fome em patamares baixos. O primeiro deles é o <b>combate à desigualdade</b>, que, segundo a especialista, está na raiz da fome. Políticas de emprego e renda foram fundamentais nesse processo, culminando no menor índice de desemprego em 13 anos e em reajustes do salário mínimo superiores a 6% a partir de 2022, o que representa um sucesso notável nesta dimensão.
A segunda frente crucial foi o <b>fortalecimento das políticas públicas de proteção social</b>. Para além da diminuição da desigualdade por meio do emprego, houve um investimento na criação de mais postos de trabalho, no aumento da renda e no reforço de sistemas essenciais como o Sistema Único de Saúde (SUS). Programas como o Bolsa Família, por exemplo, apresentaram resultados positivos significativos no apoio às famílias atendidas, contribuindo diretamente para a segurança alimentar e a melhoria das condições de vida.
O Caminho Adiante
A conjunção de fatores econômicos favoráveis e o fortalecimento das redes de proteção social criaram um ambiente propício para a redução expressiva da fome. No entanto, a sustentabilidade desses avanços exige um compromisso contínuo com a intersetorialidade e a permanência das políticas que demonstraram eficácia. O desafio agora é consolidar essas conquistas e estender o acesso à alimentação adequada a cada um dos 6,5 milhões de brasileiros que ainda aguardam por essa garantia fundamental.
O aniversário de um ano fora do Mapa da Fome é um momento para celebrar, mas também para renovar o pacto nacional contra a fome, visando um futuro onde o direito à alimentação saudável e suficiente seja uma realidade inalienável para todos, em cada canto do país.