Cubatão em Alerta: Prefeito e Setor Produtivo Buscam Socorro Federal Contra Desindustrialização

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A cidade de Cubatão, no litoral paulista, outrora um dos principais polos industriais do Brasil, enfrenta um período crítico de desindustrialização, com o fechamento de grandes empresas e a iminente perda de milhares de empregos. Diante deste cenário alarmante, o prefeito César Nascimento (PSD) e representantes de diversos setores da sociedade local e regional se preparam para uma mobilização sem precedentes em Brasília. O objetivo central é angariar o apoio do governo federal para reverter o êxodo industrial e revitalizar a economia local, que sofre os duros impactos das políticas tarifárias e da concorrência internacional.

A comitiva busca sensibilizar as autoridades sobre a urgência de uma revisão na política tarifária aplicada ao setor petroquímico e, em especial, à importação de fertilizantes, que tem estrangulado a produção nacional. Essa iniciativa visa proteger o que resta do parque industrial e buscar soluções que garantam a competitividade das empresas instaladas no país, preservando a história e o futuro econômico da Baixada Santista.

A Profundidade da Crise Industrial em Cubatão

Em menos de um ano, Cubatão testemunhou o encerramento parcial das atividades de duas companhias de grande porte: a Unigel e a Yara Brasil. A Unigel, após quase sete décadas de operação ininterrupta, anunciou em janeiro a paralisação da produção de estireno e tolueno na unidade. A empresa justificou a medida pela "baixa sem precedentes" na indústria química global e pelo excesso de oferta de petroquímicos no mercado internacional, uma tendência observada desde 2023. Atualmente em recuperação judicial, com uma dívida superior a R$ 5 bilhões, a Unigel optou por concentrar sua produção de poliestireno na unidade do Guarujá, realocando parte das operações de São José dos Campos.

O fechamento dessas plantas industriais representa um marco doloroso no processo de esvaziamento do polo de Cubatão, que, historicamente, foi um dos pilares da industrialização paulista e nacional. A saída de empresas como a Unigel não apenas simboliza a perda de uma parte importante da história industrial da região, mas também projeta um futuro incerto para a força de trabalho local e a cadeia produtiva associada.

A Estratégia de Mobilização e o Apelo ao Governo Federal

O prefeito César Nascimento planeja uma viagem estratégica a Brasília, onde buscará uma audiência com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Acompanhado por representantes políticos, empresariais e sindicais da Baixada Santista, o chefe do executivo municipal pretende discutir os profundos reflexos do fechamento das fábricas na cidade. Ele enfatiza que a perda de protagonismo de um polo industrial como Cubatão não enfraquece apenas a economia local, mas toda a indústria nacional, destacando a necessidade de uma intervenção federal robusta.

Além da discussão sobre as políticas tarifárias, a comitiva de Cubatão também pressionará pela aceleração da investigação sobre a prática de dumping nas exportações de produtos laminados de ferro e aço da China para o Brasil. Conduzida pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a investigação já apontou indícios preliminares de dumping em dezembro de 2025, mas o prazo para sua conclusão foi estendido, gerando incerteza para o setor produtivo nacional.

Impacto Social e Desafios no Setor de Fertilizantes

A crise industrial em Cubatão se traduz em um severo impacto social, principalmente na esfera do emprego. Herbert Passos Filho, presidente do Sindicato dos Químicos da Baixada Santista (Sindquim), relembra que o município já chegou a empregar mais de 12 mil trabalhadores apenas na indústria petroquímica. Hoje, esse número não ultrapassa 3 mil, evidenciando a drástica redução da base de empregos qualificados na região.

No que tange aos fertilizantes, setor vital para o agronegócio brasileiro, a situação é igualmente preocupante. A produção nacional despencou de 11 milhões de toneladas anuais em 2008 para cerca de 6 milhões em 2025, enquanto o consumo interno disparou para mais de 41 milhões de toneladas por ano. Essa lacuna tem sido preenchida por importações, muitas vezes beneficiadas por políticas de isenção tributária que, paradoxalmente, reduzem a competitividade das fábricas nacionais. A revisão do Convênio ICMS nº 26/2021, que elevou gradualmente o imposto sobre fertilizantes até 4% em 2025, é citada como um fator adicional de desequilíbrio, impactando os custos do agronegócio em R$ 11,74 bilhões entre 2021 e 2024, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A questão, portanto, reside em uma escolha estratégica: fortalecer a indústria química nacional significa estimular empregos qualificados e bem remunerados, gerando valor para a economia do país.

Iniciativas Governamentais e o Caminho para a Recuperação

O governo federal, ciente dos desafios enfrentados pelo setor químico, tem implementado programas de incentivo para tentar reverter esse quadro. Em 2025, foi sancionada a Lei nº 15.294, que institui o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), prevendo a alocação de mais de R$ 10 bilhões em incentivos fiscais até 2031. Previamente, em 2023, houve a retomada do Regime Especial da Indústria Química (Reiq), que concede benefícios tributários ao setor. Essas medidas buscam oferecer um fôlego para as empresas e estimular a permanência e o investimento na produção nacional.

O próprio vice-presidente Geraldo Alckmin, figura central na agenda da comitiva de Cubatão, já reconheceu publicamente as dificuldades que o setor enfrenta. Essa percepção do governo federal é um ponto de partida crucial para a busca de soluções conjuntas que possam estabilizar o parque industrial de Cubatão e, por extensão, fortalecer a indústria química brasileira como um todo, garantindo que o polo continue a ser uma fonte de desenvolvimento e inovação.

Perspectivas e o Futuro de Cubatão

O movimento encabeçado pelo prefeito de Cubatão, com o apoio de entidades sindicais e empresariais, reflete a urgência de uma resposta coordenada para a crise industrial. A cidade, símbolo da força produtiva brasileira, luta para não se tornar um mero espectro de sua glória industrial passada. O êxito da missão em Brasília dependerá da capacidade de as autoridades federais compreenderem a complexidade do problema e implementarem políticas que conciliem a competitividade global com a proteção da indústria nacional e dos empregos que ela gera.

A reversão do processo de desindustrialização em Cubatão não é apenas uma questão local, mas um desafio nacional que exige a harmonização de incentivos fiscais, revisão de políticas tarifárias e um combate eficaz a práticas desleais de comércio. Somente com um esforço conjunto e estratégico será possível reescrever o futuro econômico da cidade e reafirmar seu papel vital no panorama industrial do Brasil.

Fonte: https://mundosindical.com.br

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