Neste mês, a memória de um alagoano de Quebrangulo, cidade natal do célebre escritor Graciliano Ramos, foi reverenciada em São Paulo. Trata-se de Manoel Fiel Filho, um metalúrgico cuja trajetória pacífica foi abruptamente interrompida pela repressão política. A lembrança de sua vida e morte, há quase cinco décadas, serve como um poderoso elo entre o passado brutal da ditadura militar brasileira e as contínuas aspirações por justiça social e democracia no presente.
Manoel Fiel Filho: O Legado de uma Vítima da Ditadura
Manoel Fiel Filho, que atuava como prensista em uma fábrica na Mooca, em São Paulo, tornou-se um dos símbolos mais dolorosos da violência estatal. Em 17 de janeiro de 1976, ele foi sequestrado, torturado e assassinado por agentes da ditadura no famigerado DOI-Codi, deixando para trás a esposa e duas filhas pequenas. Sua morte ocorreu apenas alguns meses após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog no mesmo centro de tortura, gerando uma onda de indignação que abalou as estruturas do regime e forçou o então presidente General Geisel a afastar diversos comandantes militares implicados em tais atrocidades. Descrito por sua filha Márcia como um pai carinhoso e um homem pacífico, Manoel evitava discussões sobre política, religião e futebol, personificando a tragédia de cidadãos comuns brutalmente atingidos pela máquina repressora.
A Força da Memória e a Homenagem Coletiva
No dia 19 de janeiro, uma cerimônia significativa em memória de Manoel Fiel Filho foi realizada na Rua do Carmo, 171, no Centro de São Paulo. O local não foi escolhido ao acaso: ali funcionou por muitos anos o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, ao qual Manoel era associado. O evento contou com a expressiva presença do Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos e Região, representado por seu presidente, Josinaldo José de Barros (Cabeça), e diretores como Chorão, Robson, Galdino, Nildo, Lucas e Jau. A homenagem sublinhou a necessidade vital de a classe trabalhadora não apenas preservar suas memórias coletivas, registradas em testemunhos e documentos, mas também de reconhecer e valorizar suas referências históricas como pilares para a construção de um futuro mais justo.
Do Passado ao Futuro: O Papel Transformador do Sindicato
A celebração da memória de Manoel Fiel Filho transcende o simples registro histórico, projetando-se como um catalisador para a ação futura. A cerimônia em São Paulo, aliás, seguiu-se à confraternização realizada no Clube de Campo, no dia 17, que reuniu a direção sindical e delegados eleitos da base. Este encontro proporcionou um espaço para que os trabalhadores apresentassem propostas e direcionamentos, visando aprimoramentos nas fábricas e para toda a categoria. Em consonância com essa visão prospectiva, o Sindicato planeja uma série de ações futuras, envolvendo a diretoria, associados, integrantes das CIPAAs e Delegados/Representantes Sindicais. O objetivo é preparar a classe trabalhadora para as profundas mudanças que as novas tecnologias impõem, alterando rapidamente cenários profissionais, econômicos, políticos, culturais e sociais. A vigilância e a proatividade são essenciais para que ninguém seja pego de surpresa, garantindo que os direitos e o bem-estar dos trabalhadores sejam sempre protegidos e aprimorados.
Democracia: O Valor Inabalável
A cerimônia de homenagem a Manoel Fiel Filho foi um momento de profundo respeito e reflexão, onde diversos temas foram recordados e debatidos. O que se destacou foi a unanimidade no repúdio à violência política, um sentimento que uniu um grupo eclético de presentes – metalúrgicos, comerciários, químicos, aposentados, jornalistas e advogados. Mais do que qualquer tecnologia ou avanço, prevaleceu a exaltação de um valor universal e insubstituível: a democracia. A trajetória de Manoel Fiel Filho, um homem simples cuja vida foi ceifada pela arbitrariedade, permanece como um lembrete contundente da fragilidade das liberdades e da importância perene de defendê-las, garantindo que o valor da democracia seja sempre a bússola que orienta as ações da sociedade e do movimento sindical.