Uma pesquisa recente, conduzida pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados, revela um consenso robusto entre os brasileiros: a grande maioria anseia por uma jornada de trabalho que ofereça mais tempo de descanso semanal sem impactar sua remuneração. O levantamento destaca uma clara preferência por modelos que garantam, no mínimo, dois dias de folga, com apoio massivo à abolição do regime 6×1, desde que os vencimentos sejam preservados.
A Forte Adesão a Uma Semana de Trabalho Mais Flexível
A demanda por mais dias de repouso é contundente em todo o país, com 84% dos 2.021 entrevistados, maiores de 16 anos e residentes nas 27 unidades da Federação, defendendo que os trabalhadores tenham, no mínimo, dois dias livres por semana. Quando a discussão se volta especificamente para o fim da escala 6×1 — modelo em que se trabalha seis dias e descansa apenas um — impressionantes 73% manifestam apoio, mas sob uma condição inegociável: a manutenção integral do salário. Caso essa salvaguarda seja removida, e a mudança implicasse um corte na remuneração, o índice de favoráveis despenca para apenas 28%, evidenciando a extrema sensibilidade da população em relação ao poder de compra. De forma mais genérica, 63% dos brasileiros apoiam o encerramento da escala 6×1, demonstrando uma rejeição ampla ao modelo atual de jornada. A pesquisa foi realizada entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro deste ano.
O Dilema da Remuneração: Ponto Central do Debate
A complexidade do debate reside na conciliação entre a redução da carga horária e a sustentabilidade financeira dos trabalhadores. Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, pontua que esta é a “grande questão”, onde as empresas frequentemente argumentam que qualquer diminuição da jornada deve vir acompanhada de um ajuste salarial. Em contrapartida, os empregados recusam veementemente perder renda, estabelecendo um impasse. Este cenário reflete uma luta por equilíbrio entre produtividade e qualidade de vida, representando o cerne do desafio para a implementação de novas políticas trabalhistas que atendam às expectativas de ambos os lados.
A Proposta em Tramitação no Congresso Nacional
A proposta para alterar a jornada de trabalho já está em discussão avançada no Congresso, materializada pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015. Em dezembro do ano passado, o texto obteve aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal. Contudo, o caminho legislativo ainda é longo e exigirá um amplo consenso: a PEC necessita passar por mais duas votações no plenário do Senado Federal e, posteriormente, por outras duas etapas de votação na Câmara dos Deputados para ser promulgada.
Detalhes da Implementação Gradual
Caso a PEC seja finalmente aprovada, sua implementação está prevista para ocorrer de forma progressiva. No primeiro ano após a promulgação, as regras atuais seriam mantidas. A partir do segundo ano, os trabalhadores passariam a ter duas folgas semanais. Adicionalmente, a jornada máxima, hoje fixada em 44 horas semanais, começaria a ser reduzida de maneira escalonada, visando alcançar 36 horas semanais a partir de 2031. Crucialmente, a questão de se essa transição poderá ser feita sem a redução dos salários é um dos pontos que ainda aguarda definição pelos parlamentares.
Percepções Políticas e o Entendimento Público da PEC
A pesquisa da Nexus também revela uma nuance interessante no apoio à proposta, que se manifesta de forma distinta entre os diferentes espectros políticos. Entre os eleitores do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022, 71% declararam-se favoráveis ao projeto. Já no grupo dos que votaram em Jair Bolsonaro, o índice de apoio, embora menor, ainda é significativo, alcançando 53%. Em ambos os segmentos, uma parcela dos entrevistados optou por se declarar contrária ou não manifestar opinião. Em relação à compreensão da proposta, apenas 12% dos brasileiros afirmam entender bem o conteúdo da PEC 148/2015, sugerindo um desafio de comunicação e esclarecimento público. Apesar disso, 52% dos entrevistados acreditam que o Congresso Nacional aprovará a matéria, enquanto 35% expressam ceticismo quanto ao seu avanço.
Os resultados da pesquisa Nexus sublinham um desejo inequívoco da população brasileira por maior equilíbrio entre vida profissional e pessoal, materializado na busca por mais dias de descanso e uma jornada de trabalho mais humana. O desafio, contudo, reside na intrincada negociação da manutenção da renda, ponto que se mostra crucial para a aceitação e o sucesso de qualquer reforma trabalhista. À medida que a PEC 148/2015 avança no legislativo, a capacidade do Congresso de equilibrar as expectativas dos trabalhadores e as realidades do mercado definirá o futuro da jornada de trabalho no país.
Fonte: https://mundosindical.com.br