O programa Move Brasil, iniciativa do governo federal para revitalizar a frota de caminhões no país, demonstrou um impacto significativo já no seu primeiro mês de operação. Em um evento realizado em Guarulhos (SP) neste domingo (8), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, anunciou que a ação liberou aproximadamente R$ 2 bilhões em financiamentos. Esse volume expressivo destaca a urgência e a receptividade do mercado por mecanismos que promovam a modernização e o aquecimento do setor de transportes, fundamental para a economia nacional.
Acelerando a Modernização em Meio a Desafios Econômicos
A rápida adesão ao Move Brasil surge como um alívio para um segmento que enfrentava forte retração. O mercado de caminhões havia registrado uma queda de 9,2% nas vendas no ano anterior, com os modelos pesados, essenciais para o transporte de longas distâncias, sofrendo uma retração ainda mais acentuada de 20,5% em comparação com 2024. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) também revelou um início de ano desafiador, com uma queda de 34,67% em janeiro de 2024 frente a janeiro de 2023.
Segundo o ministro Alckmin, a principal barreira para o crescimento das vendas de veículos duráveis, como os caminhões, era a elevada taxa de juros praticada no país, que chegou a patamares de 22% a 23% ao ano. Ele ressaltou o paradoxo de uma economia com safras recordes e exportações robustas – totalizando US$ 349 bilhões em exportações e uma corrente de comércio de US$ 629 bilhões – que demandava escoamento eficiente de seus produtos, mas via o financiamento travado. A resposta positiva ao programa, com os cerca de R$ 1,9 bilhão já liberados no início, demonstra que a taxa de juros mais acessível do Move Brasil era a chave esperada pelo mercado.
Impacto Direto na Operação e na Geração de Empregos
A efetividade do Move Brasil é tangível para empresários como Orlando Boaventura, proprietário de uma transportadora familiar com 30 funcionários em Santa Isabel (SP), que opera há duas décadas. Utilizando os recursos do programa, sua empresa adquiriu o 29º caminhão de sua frota. Boaventura destacou que um modelo novo pode gerar uma economia de até R$ 200 em combustível em uma única viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro, além de se adequar a uma taxa de juros compatível com as necessidades do setor, o que também permitiu à empresa planejar a contratação de mais cinco funcionários este ano.
A relevância do programa transcende o aspecto financeiro, alcançando a esfera social e ambiental. Wellington Damasceno, do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, salientou o esforço colaborativo entre governo, empresas e sindicatos para a concepção do Move Brasil, enfatizando seu papel na manutenção de empregos, na diminuição das emissões de carbono e na promoção de uma logística mais sustentável. Representantes da indústria, incluindo Christopher Polgorski, CEO da Scania, reforçaram a importância da continuidade do programa. Polgorski sublinhou que cada emprego mantido na produção e vendas diretas reflete na manutenção de outros seis empregos indiretos, e que a redução da Selic, embora promissora, seria um complemento, não um substituto para a antecipação de expectativa que o Move Brasil proporciona.
Detalhes e Mecanismos de Funcionamento do Programa
O Move Brasil atua fornecendo linhas de crédito, por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para a aquisição de caminhões novos e seminovos fabricados a partir de 2012, desde que atendam a rigorosos critérios ambientais. A iniciativa visa não apenas a substituição de veículos antigos, mas a transição para uma frota mais eficiente e menos poluente. Em um balanço de janeiro, o programa, especificamente a linha Renovação da Frota, já havia beneficiado caminhoneiros autônomos, cooperados e empresas transportadoras em 532 municípios, com 1.152 operações realizadas e um valor médio de R$ 1,1 milhão por operação.
Com um montante total de R$ 10 bilhões em crédito, provenientes do Tesouro Nacional e do BNDES, o programa possui uma alocação específica de R$ 1 bilhão dedicada exclusivamente a caminhoneiros autônomos e cooperados. As taxas de juros são competitivas, oscilando entre 13% e 14% ao ano, com condições ainda mais vantajosas para aqueles que comprovadamente entregarem veículos mais antigos para desmonte. O limite de financiamento por usuário é de até R$ 50 milhões, com prazos que podem chegar a 5 anos e carência de até 6 meses. Adicionalmente, todas as operações são protegidas pelo Fundo Garantidor de Investimentos (FGI), cobrindo até 80% do valor financiado, o que oferece maior segurança aos investidores e aos beneficiários.
Perspectivas de Continuidade e o Futuro do Setor
Apesar da manifestação da indústria pela perenização, o vice-presidente Alckmin esclareceu que o Move Brasil não possui um prazo de conclusão definido, mas sim um teto de R$ 10 bilhões. O programa seguirá ativo até que os recursos se esgotem, o que, conforme Alckmin, pode levar de dois a seis meses. Após o esgotamento, será realizada uma nova avaliação. Não há, neste momento, discussões para aumentar o valor total disponibilizado, mas a intenção é manter o estímulo ao setor enquanto houver demanda e recursos.
O programa Move Brasil, portanto, emerge como um pilar fundamental para a recuperação e modernização do setor de transportes no Brasil. Ao enfrentar diretamente os desafios de altas taxas de juros e frota envelhecida, o governo federal, em parceria com o BNDES e em diálogo com a indústria e trabalhadores, conseguiu criar um mecanismo eficaz que não só estimula as vendas e o emprego, mas também impulsiona a sustentabilidade ambiental, pavimentando o caminho para uma infraestrutura logística mais robusta e eficiente para o país.