Uma federação de trabalhadores do serviço público municipal, que representa milhares de profissionais da educação em diversas localidades, expressou profunda preocupação e indignação diante da proposta de reajuste de apenas 0,37% para o piso nacional do magistério em 2026. Este percentual, considerado irrisório e alarmante, foi divulgado oficialmente em uma edição extra do Diário Oficial da União em 30 de dezembro de 2025, sendo derivado da atualização do Valor Aluno Ano do Fundeb (VAAF). Para a entidade sindical, o índice é flagrantemente insuficiente para sequer recompor as perdas inflacionárias acumuladas pelos profissionais da educação básica, configurando mais um golpe à valorização da categoria e ameaçando a qualidade da educação pública. Este cenário se insere em um contexto mais amplo de desafios no financiamento educacional, marcado por decisões políticas e pressões econômicas que impactam diretamente a capacidade dos municípios de oferecerem remuneração justa a seus educadores.
A Análise Crítica do Percentual e Suas Implicações
O índice de 0,37% proposto para o piso do magistério em 2026 é motivo de grande consternação entre os educadores e suas representações. Na prática, um percentual tão baixo significa um reajuste nominal quase inexistente, que não acompanha a escalada dos custos de vida e a inflação acumulada ao longo dos anos. A base para este cálculo é o Valor Aluno Ano do Fundeb (VAAF), um parâmetro crucial que, ao refletir um crescimento mínimo, limita a capacidade de reajuste salarial dos professores. Este mecanismo, embora fundamental para o financiamento da educação, quando apresenta variações tão pequenas, reflete uma estagnação que compromete diretamente a remuneração dos profissionais.
A federação ressalta que este reajuste pífio não só deixa de recompor as perdas inflacionárias passadas, como aprofunda a desvalorização profissional. Observa-se um padrão preocupante de reajustes abaixo da inflação ou mesmo nulos, como ocorreu em 2021, quando o índice foi zero, ou em 2024, quando o percentual aplicado não garantiu qualquer ganho real para os salários. Essa trajetória contínua de desvalorização tem efeitos devastadores na motivação da categoria, na atração de novos talentos para a carreira e, consequentemente, na qualidade do ensino público ofertado aos estudantes brasileiros. O salário do professor, que já é um desafio em muitas regiões, fica ainda mais defasado frente a outras profissões e ao custo de vida crescente.
Impacto Direto nas Condições de Vida e Carreira dos Professores
A insuficiência do reajuste tem um impacto direto e severo nas condições de vida dos profissionais do magistério. Muitos educadores já enfrentam dificuldades para arcar com despesas básicas, e a falta de uma remuneração justa impede investimentos em sua própria formação continuada, em materiais didáticos e em tecnologias que poderiam enriquecer o processo de aprendizagem. A desvalorização salarial também se reflete na baixa procura por cursos de licenciatura, criando um déficit de professores qualificados no futuro, especialmente em áreas essenciais.
Além disso, a perpetuação de reajustes inadequados mina a autoestima profissional e o reconhecimento social da carreira docente. Professores, que são a espinha dorsal do sistema educacional e a base para o desenvolvimento de qualquer sociedade, sentem-se desamparados e pouco valorizados. Este cenário de precarização salarial não apenas afeta o bem-estar individual do educador, mas também compromete a qualidade pedagógica nas salas de aula, uma vez que a insatisfação e a sobrecarga financeira podem desmotivar e dificultar o desempenho pleno das funções.
Raízes do Problema: Desafios no Financiamento da Educação
A entidade sindical aponta que o atual cenário de baixíssimos reajustes para o piso do magistério não é um fato isolado, mas sim o resultado direto de escolhas políticas e um complexo panorama econômico que fragilizam o financiamento da educação pública. Uma das preocupações centrais reside na promulgação da Emenda Constitucional nº 135, oriunda da PEC 45/2024. Embora essa emenda tenha a intenção de impulsionar o ensino em tempo integral, ela realoca recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) para custear essa modalidade de ensino sem a devida ampliação do orçamento educacional como um todo. Tal medida, sem um acréscimo de verbas, intensifica a pressão sobre os recursos já limitados destinados à valorização dos profissionais da educação, gerando uma espécie de “cobertor curto” no sistema educacional.
Outro fator determinante para a redução da capacidade de investimento no Fundeb é a queda na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Este imposto, que representa uma parcela significativa da receita de estados e municípios, não retornou aos patamares observados em 2022 após alterações nas alíquotas promovidas por legislações anteriores. A diminuição da arrecadação impacta diretamente os repasses para o Fundeb, que depende fortemente das receitas estaduais e municipais. Somam-se a isso os recentes efeitos de medidas econômicas externas que atingiram setores estratégicos da economia nacional, gerando instabilidade e, por vezes, a necessidade de contenções orçamentárias que, invariavelmente, acabam por repercutir no financiamento da educação e, consequentemente, na capacidade de valorização dos profissionais.
Fundeb Sob Pressão: Um Diagnóstico Multifacetado
O Fundeb, pilar fundamental para a equidade e o desenvolvimento da educação básica no Brasil, encontra-se sob pressão multifacetada. A insuficiência de recursos gerada pela realocação de verbas sem aumento orçamentário e a queda na arrecadação do ICMS criam um ambiente de escassez que afeta diretamente sua capacidade de cumprir plenamente seus objetivos. Este cenário é agravado pela ausência de políticas fiscais que garantam uma complementação adequada da União quando as metas de valorização profissional não são atingidas, deixando os municípios em uma situação precária.
As contenções sistemáticas no Fundeb, resultantes desse complexo emaranhado de fatores políticos e econômicos, impactam diretamente a vida dos trabalhadores e trabalhadoras da educação básica. A incapacidade de promover reajustes salariais justos não é apenas uma questão de números, mas uma falha em reconhecer a importância estratégica da educação para o desenvolvimento social e econômico do país. A manutenção de um Fundeb robusto e com recursos crescentes é essencial para reverter essa trajetória de desvalorização e assegurar um futuro promissor para as novas gerações de estudantes brasileiros.
A Luta pela Valorização e o Futuro da Educação Pública
Diante do preocupante cenário, a federação de trabalhadores reafirma seu compromisso histórico com a defesa intransigente de uma educação pública, gratuita e de qualidade. A entidade declara que seguirá mobilizada, em conjunto com outras importantes organizações nacionais representativas da categoria, na luta incansável pela revisão deste percentual de reajuste e pela efetiva valorização dos profissionais do magistério. Essa mobilização envolverá um conjunto de ações estratégicas, desde negociações junto aos poderes públicos até manifestações e debates que visam sensibilizar a sociedade e as autoridades sobre a urgência do tema.
A mensagem é clara e contundente: os custos dos ajustes fiscais e das políticas econômicas não podem recair sobre os ombros daqueles que diariamente sustentam a educação pública nos municípios, desde a sala de aula até a gestão escolar. A valorização profissional não é um mero capricho, mas uma condição essencial e inegociável para que se possa construir uma educação de qualidade, capaz de formar cidadãos críticos, criativos e atuantes. Sem professores bem remunerados, motivados e reconhecidos, o projeto de desenvolvimento social do país, alicerçado na educação, fica seriamente comprometido.
É fundamental que haja um reconhecimento por parte dos governantes de que o investimento na educação e na remuneração digna de seus profissionais é um investimento no futuro da nação. A continuidade da desvalorização docente não só precariza as condições de trabalho, como também perpetua desigualdades e limita o potencial transformador da escola pública. A luta, portanto, transcende a questão salarial; é uma batalha pela dignidade da profissão, pela excelência do ensino e pelo próprio desenvolvimento sustentável do Brasil, garantindo que o direito à educação de qualidade seja uma realidade para todos os estudantes.
Fonte: https://fetram.com.br