A Região Metropolitana de São Paulo enfrenta novamente um cenário de preocupação com o abastecimento de água. Desde 2 de agosto, a pressão da água vem sendo reduzida durante o período noturno, das 21h às 5h, somando oito horas diárias. Essa medida, implementada por determinação da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), acende um alerta não apenas sobre a gestão hídrica, mas também sobre os potenciais efeitos da privatização da Sabesp, levantando questionamentos por parte de entidades sindicais.
A Justificativa Oficial e a Contestação Sindical
A Arsesp classifica a redução da pressão como uma ação preventiva e temporária, visando preservar os níveis dos reservatórios da região, que se encontram em estado de atenção devido a índices pluviométricos abaixo da média histórica. A agência assegura que, durante o período diurno, entre 5h e 21h, o fornecimento de água deve ocorrer normalmente, mantendo os níveis de pressão regulamentados.
Contudo, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil em São Paulo (CTB-SP) não vê a situação meramente como uma questão técnica de economia de água. A entidade sindical adverte que qualquer alteração na qualidade ou na regularidade do abastecimento impacta diretamente a população, com maior severidade sobre os moradores das áreas mais vulneráveis da metrópole.
O Alerta dos Trabalhadores: Água como Direito, Não Mercadoria
Rene Vicente, presidente da CTB-SP, expressa veementemente sua crítica à medida, exigindo maior transparência das autoridades. Ele considera inaceitável que a população tenha que suportar a redução da pressão por oito horas diárias, ressaltando que a água é um serviço essencial para a vida, a saúde e a dignidade das famílias. Para Vicente, a população não deveria arcar com as consequências de problemas de gestão ou de decisões políticas que submeteram um serviço público vital à lógica de mercado.
Essa preocupação não é recente. O Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) já havia se manifestado sobre a redução da pressão entre 21h e 5h em momentos anteriores, questionando seus impactos sobre o direito fundamental da população ao acesso à água. Na ocasião, o sindicato já apontava para a realidade de diversos bairros da Grande São Paulo que enfrentavam falta d’água e problemas de baixa pressão.
O Histórico das Denúncias e os Impactos da Privatização
Em boletins divulgados em períodos passados, o Sintaema documentou casos em que bairros ficaram dias sem abastecimento, além de relatar situações de baixa pressão e fornecimento de água turva, amarelada e com mau cheiro. Essa série de ocorrências reforçou a bandeira do sindicato em defesa do saneamento público, sintetizada na poderosa frase: “Água é vida, não é mercadoria”.
Ao longo dos últimos meses, o Sintaema tem reiterado denúncias sobre os desafios relacionados à privatização da Sabesp, apontando para a falta d’água, a má qualidade do recurso, a redução de equipes e a precarização dos serviços. A entidade tem consistentemente argumentado que os impactos mais severos dessa nova gestão recaem, sobretudo, sobre as comunidades mais vulneráveis, que dependem diretamente de um serviço público eficiente e acessível. A priorização de interesses financeiros em detrimento da qualidade do serviço e do bem-estar social tem sido o cerne de sua crítica, com denúncias passadas sobre aumento de tarifas, demissões e problemas na prestação após o processo de privatização.
Saneamento Público em Foco: A Necessidade de Planejamento e Investimento
Para Rene Vicente, os alertas emanados pelos trabalhadores do saneamento devem ser levados a sério e urgentemente. Ele enfatiza que o Sintaema tem exposto há um período considerável os problemas de abastecimento, a baixa pressão, a inadequação da qualidade da água e os efeitos do que ele chama de “desmonte” da Sabesp. Segundo Vicente, a simples resposta de reduzir a pressão e solicitar economia à população é insuficiente. É imperativo, ele argumenta, iniciar um debate aprofundado sobre planejamento estratégico, a realização de investimentos essenciais, uma fiscalização rigorosa e, fundamentalmente, sobre qual modelo de saneamento se deseja para o futuro de São Paulo.
A CTB-SP e o Sintaema persistem na defesa de que a água e o saneamento são direitos universais e inalienáveis, e não simples mercadorias sujeitas à lógica de mercado. As entidades reforçam a necessidade de que o serviço seja gerido com foco na população, garantindo acesso igualitário e de qualidade para todos, em detrimento de uma abordagem que priorize o lucro e que, a seu ver, já demonstra reflexos negativos no cotidiano dos paulistanos.